Internacional · Dezembro 2025 · 6 min de leitura

Consultoria internacional — o que ninguém conta antes de ir

Chef Dinis Pinto no Palacio Petersham, Sydney, Austrália

Levar 33 anos de pastelaria portuguesa para a Austrália ou para a Nicarágua parece, à distância, uma questão de adaptar receitas. Na prática, é uma questão de humildade técnica — perceber que o que funciona impecavelmente num contexto pode simplesmente não funcionar noutro, e que a primeira função de um consultor internacional é observar antes de ensinar.

Ingredientes não são todos iguais

A farinha, a manteiga, o açúcar — mesmo com o mesmo nome — têm frequentemente comportamento diferente consoante o país: teor de proteína da farinha, teor de gordura da manteiga, humidade ambiente, altitude. Uma receita testada e afinada em Portugal pode precisar de ajustes reais de formulação para produzir o mesmo resultado noutro clima e com outra matéria-prima. Isto não se resolve à distância — exige tempo no terreno, a testar e a ajustar.

A parte que ninguém conta: a cultura de trabalho

Adaptar receitas é a parte visível. A parte que exige mais tempo e mais paciência é adaptar a forma de trabalhar — cada equipa tem uma cultura própria de comunicação, hierarquia e ritmo. Numa consultoria na Nicarágua, por exemplo, o desafio não foi apenas ensinar uma técnica de panificação — foi perceber como uma equipa habituada a um determinado processo reage a um método diferente, e ajustar a forma de ensinar, não só o conteúdo.

Não se leva uma receita para outro país. Leva-se uma forma de pensar, e ensina-se a adaptá-la ao que já lá existe.

Três aprendizagens de projectos internacionais

1. Observar antes de mudar

Os primeiros dias num projecto internacional deveriam ser de observação, não de intervenção. Perceber o que já funciona bem localmente evita o erro de "importar" soluções desnecessárias para problemas que não existem.

2. Formar formadores, não só operacionais

Um projecto de consultoria internacional que depende da presença contínua do consultor não é sustentável. O objectivo é sempre deixar, no terreno, pessoas capazes de manter e transmitir o conhecimento depois de o projecto terminar.

3. Medir resultados, não intenções

Redução de desperdício, consistência de produto, equipa certificada — resultados concretos e verificáveis são o que distingue um projecto de consultoria bem-sucedido de uma visita simpática que não deixa nada de permanente.

O que fica depois do projecto terminar

O critério mais honesto para avaliar um projecto de consultoria internacional não é o que acontece durante a estadia do consultor — é o que continua a funcionar seis meses depois, sem ele.

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Fontes consultadas:
Perspectiva profissional do Chef Dinis Pinto, com base em projectos de consultoria realizados na Austrália (Palacio Petersham, Sydney) e na Nicarágua (programa EuropeAid).

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